A Alvorada do amor.....

“Um horror, grande e mudo, um silêncio profundo
No dia do Pecado amortalhava o mundo.
E Adão, vendo fechar-se a porta do Éden, vendo
Que Eva olhava o deserto e hesitava tremendo,
Disse:
Chega-te a mim! entra no meu amor,
E à minha carne entrega a tua carne em flor!
Preme contra o meu peito o teu seio agitado,
E aprende a amar o Amor, renovando o pecado!
Abençôo o teu crime, acolho o teu desgosto,
Bebo-te, de uma em uma, as lágrimas do rosto!
Vê tudo nos repele! a toda a criação
Sacode o mesmo horror e a mesma indignação...
A cólera de Deus torce as árvores, cresta
Como um tufão de fogo o seio da floresta,
Abre a terra em vulcões, encrespa a água dos rios;
As estrelas estão cheias de calefrios;
Ruge soturno o mar; turva-se hediondo o céu...
Vamos! que importa Deus? Desata, como um véu,
Sobre a tua nudez a cabeleira! Vamos!
Arda em chamas o chão; rasguem-te a pele os ramos;
Morda-te o corpo o sol; injuriem-te os ninhos;
Surjam feras a uivar de todos os caminhos;
E, vendo-te a sangrar das urzes através,
Se amaranhem no chão as serpes aos teus pés...
Que importa? o Amor, botão apenas entreaberto,
Ilumina o degredo e perfuma o deserto!
Amo-te! sou feliz! porque, do Éden perdido,
Levo tudo, levando o teu corpo querido!
Pode, em redor de ti, tudo se aniquilar:
Tudo renascerá cantando ao teu olhar,
Tudo, mares e céus, árvores e montanhas,
Porque a Vida perpétua arde em tuas entranhas!
Rosas te brotarão da boca, se cantares!
Rios te correrão dos olhos, se chorares!
E se, em tôrno ao teu corpo encantador e nú,
Tudo morrer, que importa? A natureza és tu,
Agora que és mulher, agora que pecaste!
Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico na terra, luz dos olhos teus,
Terra, melhor que o Céu! homem maior que Deus! “
Olavo Bilac (Livro: Bilac Tempo e Poesia publicado em 1965)


Para iniciar os trabalhos, resolvi começar por este poema de Olavo Bilac“A alvorada do amor”, minha escolha foi baseada na premissa de que a mulher foi a grande culpada e responsável pela queda do homem dos Jardins do Éden. Em muitos textos vemos Eva, como a grande pecadora, a mulher que arruinou a vida de Adão, que o fez ser expulso do paraíso por sua curiosidade e ambição em obter conhecimento, ou seja, queimou, não leu, o pau comeu.
A primeira vez que li este poema, logo me identifiquei com o estilo, a revolta contida nas questões ali envolvidas, sempre achei as teorias religiosas cristãs demasiadamente tendenciosas, justamente para gerar um conflito entre os sexos e colocar a mulher numa posição de inferioridade, já que a mulher sendo impura justificaria “facinho, facinho” vários séculos de escravidão e todo tipo de repressão, violência e covardia a que foram sujeitas.
Mas Bilac resolveu mostrar a outra face de Deus, a face do Deus inflexível, não misericordioso, colérico e destruidor. Bem ao gosto do povo fundamentalista Cristão. E para concluir o poema sobre o mito da queda, além de utilizar chave de ouro, uma técnica muito comum entre os escritores parnasianos, ele lança o olhar apaixonado por uma mulher. E diz:

“Ah! bendito o momento em que me revelaste
O amor com o teu pecado, e a vida com o teu crime!
Porque, livre de Deus, redimido e sublime,
Homem fico, na terra, à luz dos olhos teus,
- Terra, melhor que o céu! homem, maior que Deus!"

Suspirando informo que sempre vale a pena ler Olavo Bilac...o homem capaz de ouvir e entender as estrelas...mas aqui fica minha pergunta: será que ele queimava antes de ler?

6 comentários:

Luciana Brites disse...

Tudo bem, Lu. Mas no final, ele não diz: Terra melhor que céu..MULHER maior que Deus!Teu argumento tá furado...vc andou estudando o parnasianismo com quem? Chico Xavier?

Pedro Dobbin disse...

Não entendi seu comentário. Está querendo dizer que essa poesia não é la muito parnasiana? De fato.

Luciana Brites disse...

sim..sim...na verdade, é uma das poucas poesias dele que possui tendências menos parnasianas e mais romanticas..diria até que simbolista..mas é melhor não arriscar...rsrs

Daniel Dobbin disse...

A poesia é foda, o rotulo não ajuda em nada, e nem precisa. Chico Xavier era um otimo poeta tb, entao tanto faz.

Barbara disse...

Durante milênios a mulher foi vista como o ser mais poderoso da Terra, um dia os homens se revoltaram e não conseguiram oprimi-las mais que um filho xingar a mãe. Durante um tempo a mãe pode até aceitar as pirraças, mas uma hora vai colocar de castigo. As mulheres estão aprendendo a serem mães. (rs)

Drix Brites disse...

o final me lembrou Nietszche... o super homem.

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